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Um plantão policial: o que realmente acontece durante 12 horas de serviço?

PROCEDIMENTOS OPERACIONAIS

Willian Carvalho

8/25/20266 min read

12 horas.

Para quem olha de fora, pode parecer apenas mais um turno de trabalho.

Para quem está dentro de uma viatura, com o rádio ligado, equipamentos no corpo e a responsabilidade de atender quem precisa, 12 horas podem parecer 12 dias em apenas uma noite.

Um plantão policial começa muito antes da primeira ocorrência.

E, na maioria das vezes, termina muito depois da última.

Se você imagina que o policial chega, pega a viatura, liga o giroflex e passa 12 horas perseguindo criminosos, sinto informar:

a realidade é bem diferente.

E, em alguns momentos, bem mais interessante.

06h00 — “Bom dia, guerreiro!”

O plantão começa.

Dependendo da escala, o policial chega à unidade, cumprimenta a equipe, confere os equipamentos, verifica a viatura e recebe as informações do turno anterior.

É aquele momento em que alguém inevitavelmente pergunta:

— “Como foi o plantão?”

E a resposta pode variar entre:

— “Tranquilo.”

Ou:

— “Você não faz ideia do que aconteceu aqui.”

E existe uma regra não escrita:

quando alguém diz que o plantão anterior foi tranquilo, desconfie.

Porque o universo policial tem uma habilidade impressionante de transformar um turno aparentemente calmo em uma sequência de ocorrências exatamente cinco minutos depois.

A viatura não é um carro comum

Para quem vê uma viatura passando pela rua, pode parecer apenas um veículo.

Para a equipe, ela é praticamente um escritório sobre quatro rodas.

Ali estão os equipamentos necessários para o serviço, o rádio, os sistemas de comunicação e, principalmente, dois policiais que podem precisar tomar decisões importantes em poucos segundos.

Antes de sair, existe uma rotina.

1- Conferir.

2- Testar.

3- Verificar.

4- Organizar.

Porque quando a ocorrência acontece, não existe tempo para descobrir que determinado equipamento estava onde não deveria.

Preparação é aquilo que ninguém percebe quando tudo dá certo.

E então toca o rádio...

“Equipe X, QAP DO COPOM!!”

Pronto.

A conversa acaba.

O café fica para depois.

A ocorrência começa.

É impressionante como algumas palavras no rádio conseguem transformar completamente o ambiente dentro da viatura.

Há poucos segundos, a equipe estava conversando sobre futebol, família, comida ou qualquer outra coisa.

Agora todos estão atentos.

Qual é a situação?

Quem está envolvido?

Existe risco?

Há armas?

Tem vítima?

O endereço está correto?

Qual o melhor caminho?

Tudo isso passa pela cabeça em poucos segundos.

E existe uma característica peculiar do rádio policial:

Quando você está comendo, aciona.

Quando você está no banheiro, aciona.

Quando finalmente conseguiu sentar para descansar...

ele aciona.

Parece até que o rádio tem sensores.

A ocorrência que parecia simples

Uma das maiores ilusões de um plantão policial é acreditar que determinada ocorrência será rápida.

“É só uma discussão.”

“É só um acidente.”

“É só uma averiguação.”

“É só conversar com o solicitante.”

A palavra “só” pode ser extremamente perigosa no serviço policial.

Porque, quando a equipe chega ao local, aquilo que parecia simples pode se transformar completamente.

Uma discussão pode revelar uma violência doméstica.

Uma averiguação pode encontrar uma pessoa procurada.

Um acidente pode ter uma vítima grave.

Uma denúncia aparentemente sem importância pode esconder uma situação muito mais séria.

Por isso, o policial aprende uma regra fundamental:

não existe ocorrência simples antes de chegar ao local.

Existe ocorrência que ainda não revelou o que realmente é.

E existe o cidadão que estava esperando por você

Nem toda pessoa que chama a polícia está diante de um crime.

Às vezes, ela simplesmente está desesperada.

Alguém perdeu um documento.

Uma pessoa idosa está sozinha.

Um vizinho está causando problemas.

Uma família está em conflito.

Alguém sofreu um acidente.

Uma pessoa não sabe o que fazer.

E, naquele momento, o policial acaba sendo muito mais do que alguém fardado.

Ele é a pessoa que chegou.

Aquela que ouviu.

Aquela que explicou.

Aquela que tentou organizar o caos.

Às vezes, a solução da ocorrência não envolve prisão, perseguição ou apreensão.

Às vezes, envolve simplesmente conversar.

E isso também é policiamento.

O famoso “só mais uma ocorrência”

O relógio marca 17h50.

O turno termina às 18h00.

A equipe já começa a pensar:

“Agora vai.”

Então o rádio:

— “Equipe X, QAP DO COPOM..!!!!!”

Silêncio dentro da viatura.

Alguém olha para o relógio.

Outro respira fundo.

E alguém inevitavelmente solta:

— “É... hoje vamos fazer hora extra.”

Porque no policiamento existe uma matemática própria:

17h59 + ocorrência = ninguém sabe que horas termina o plantão.

E aquela ocorrência que deveria levar 20 minutos pode envolver deslocamento, atendimento, pesquisa, apresentação, documentação, contatos e todos os procedimentos necessários.

O relógio continua andando.

O policial também.

Mas e o café?

Ah... o café.

O café merece um capítulo próprio.

Durante um plantão de 12 horas, o policial pode passar horas esperando por cinco minutos de descanso.

Quando finalmente encontra um lugar para tomar café, existe uma possibilidade considerável de o rádio tocar antes da primeira xícara.

O café esfria.

A comida esfria.

O policial continua trabalhando.

E, curiosamente, aquele café requentado às 15h pode parecer melhor do que qualquer café gourmet do mundo.

Talvez porque tenha um ingrediente especial:

a sensação de que você finalmente conseguiu sentar.

As 12 horas também têm silêncio

Nem todo momento do plantão é correria.

Existem períodos tranquilos.

A viatura circula pelas ruas.

O rádio permanece silencioso.

A cidade segue sua rotina.

Pessoas vão trabalhar.

Crianças saem da escola.

Comércios fecham.

Famílias jantam.

E a equipe continua ali.

Às vezes, justamente nesses momentos aparentemente comuns, o policial percebe uma das maiores características da profissão:

a missão também é estar presente quando nada está acontecendo.

A prevenção muitas vezes não produz uma ocorrência.

Não gera vídeo.

Não vira notícia.

Não aparece em estatística como deveria.

Mas estar ali pode fazer diferença.

Até que tudo muda novamente

Uma ocorrência grave entra.

Agora não existe espaço para distração.

A equipe precisa trabalhar.

Cada integrante possui uma função.

O treinamento começa a aparecer.

A experiência começa a fazer diferença.

O coração acelera.

A adrenalina aparece.

E, por alguns minutos, parece que tudo acontece rápido demais.

É nesse momento que o policial descobre que coragem não significa não sentir medo.

Coragem é conseguir trabalhar apesar dele.

Depois que tudo termina, existe aquele silêncio dentro da viatura.

A adrenalina começa a diminuir.

A equipe respira.

Confere se todos estão bem.

E segue para a próxima ocorrência.

Porque o plantão continua.

18h00 — Acabou?

Talvez.

Se não houver ocorrência pendente.

Se não houver apresentação.

Se não houver relatório.

Se a viatura estiver liberada.

Se não houver nenhuma outra demanda.

E se o universo policial decidir colaborar.

Porque, algumas vezes, o relógio marca 18h00, mas o policial ainda está trabalhando.

E quando finalmente chega à unidade, entrega o serviço, confere os materiais e encerra o turno, existe uma sensação difícil de explicar.

Cansaço.

Mas também existe satisfação.

Porque durante aquelas 12 horas alguma coisa aconteceu.

Talvez você tenha impedido um crime.

Talvez tenha ajudado uma vítima.

Talvez tenha encontrado alguém que precisava de ajuda.

Talvez tenha prendido alguém procurado.

Talvez tenha apenas conversado com uma pessoa que estava desesperada.

Ou talvez tenha passado horas em patrulhamento sem nenhuma ocorrência relevante.

E tudo bem.

O objetivo nunca foi fabricar ocorrências.

O objetivo é estar preparado quando elas acontecerem.

Quando a farda sai, a responsabilidade não desaparece imediatamente

O policial volta para casa.

Tira o coturno.

Deixa o equipamento.

Toma banho.

Come alguma coisa.

E finalmente tenta descansar.

Mas algumas ocorrências continuam passando pela cabeça.

“Será que fizemos tudo certo?”

“Será que aquela vítima ficou bem?”

“Será que poderíamos ter feito algo diferente?”

É um trabalho que termina no relógio, mas nem sempre termina na mente.

Porque por trás da farda existe um ser humano.

Alguém que também sente medo.

Que sente cansaço.

Que tem família.

Que tem problemas.

Que ri.

Que se irrita.

Que sente saudade.

E que, durante 12 horas, colocou tudo isso em segundo plano para cumprir uma missão.

O que realmente acontece em um plantão?

A verdade é que não existe um plantão igual ao outro.

Pode ser tranquilo.

Pode ser caótico.

Pode ter chuva.

Pode ter calor.

Pode ter perseguição.

Pode ter acidente.

Pode ter prisão.

Pode ter ocorrência que termina em risada.

Pode ter ocorrência que termina em silêncio.

Pode ter momentos de tensão.

E pode ter momentos em que a única preocupação é descobrir onde conseguir um café.

Mas existe algo que permanece igual:

a equipe está ali.

Enquanto a maioria das pessoas está vivendo suas próprias vidas, existe alguém patrulhando as ruas.

Alguém esperando o rádio tocar.

Alguém preparado para sair quando todo mundo estiver tentando entrar em casa.

E talvez essa seja a parte mais importante — e menos percebida — de um plantão policial.

Não são apenas 12 horas.

São 12 horas de disponibilidade.

12 horas de atenção.

12 horas de decisões.

12 horas de responsabilidade.

12 horas em que uma equipe pode ser chamada a qualquer momento para entrar em uma situação da qual ninguém mais quer fazer parte.

E quando o plantão finalmente termina, existe uma frase que resume tudo:

“Missão cumprida.”

Até amanhã.

Ou melhor...

Até o próximo chamado do rádio.

NOTA DA REDAÇÃO

Este conteúdo é informativo e não substitui norma interna da instituição, orientação do comando ou parecer jurídico formal. Sempre confira a legislação vigente e os procedimentos operacionais padrão da sua corporação.